Olá, queridos amigos. Sou Rui Lopes Carloto e, no dia 4 de dezembro de 2025, celebro 74 anos de vida. “Meu Deus, como o tempo passa!”
A vida é tão breve que muitas vezes não percebemos os inúmeros detalhes dos grandes acontecimentos que se perderam pelo caminho — e também daqueles que carregamos conosco até o fim dos nossos dias, sem jamais poder nos livrar completamente deles.
Infelizmente, muitos de nós não tivemos a chance de compartilhar nossas histórias pessoais, nem mesmo com nossos descendentes.
Reconhecer de onde viemos é fundamental para compreender, ao menos em parte, quem somos.
Saber quais foram nossas origens, quem foram nossos antepassados, como viviam e tudo o que aconteceu antes de nós existirmos seria um verdadeiro tesouro para qualquer ser humano.
Por isso, aqui faço uma breve autobiografia dedicada aos meus amados filhos e netos estes últimos ainda estão começando a trilhar seus primeiros passos, mas talvez um dia sintam curiosidade de conhecer a história das suas raízes.
Eram quatro horas da manhã, numa fria madrugada de inverno, quando uma pequena lareira aquecia o ambiente daquela sala modesta, preparada para receber o novo membro da família prestes a nascer.
Ali, minha mãe se preparava para o parto, auxiliada pelas mãos habilidosas da parteira, Dona Adélia. «É um rapaz!», foram as primeiras palavras que ela murmurou ao me trazer ao mundo enquanto eu, recém-nascido, a surpreendi expulsando xixi em seu rosto.
residências recentemente construídas, cada uma com um quarto pequeno, uma sala, e a cozinha incorporada. Não havia banheiro, apenas uma pequena retrete compartilhada entre as casas, situada no pátio dos fundos.
Essas casinhas permanecem ali até hoje, exatamente como eram há mais de setenta e cinco anos, como se vê numa
fotografia recente.
Eu era o segundo filho dos meus pais, pois a primeira foi minha irmã Célia, que nasceu 23 meses antes no Hospital de Anadia.
Meus tios e padrinhos a tia Micas, irmã mais velha da minha mãe, e o tio António, um dosirmãos mais velhos do meu pai, marido e mulher sempre contaram que foram os principais influenciadores no casamento dos meus pais.
Diziam que eu estava vivo graças a eles, porque naquela época meus pais não tinham condições econômicas para arcar com os gastos de mais uma criança e, por isso, minha mãe pensou em abortar-me. Eles a convenceram do contrário, prometendo ajudar na minha criação, se fosse necessário. Mas esse auxílio nunca foi preciso, pois meu pai conseguiu se estabilizar financeiramente, graças à sua habilidade no comércio, atividade que já praticava desde muito jovem na capital.
Naquele tempo, recém-casados e com uma filha pequena, meus pais viviam com recursos limitados, especialmente porque meu pai nunca quis que minha mãe trabalhasse. Ele vinha de uma vida de solteiro boémia, cercado de amigos e muitos divertimentos, sem planos de formar família até conhecer minha mãe.
Minha mãe, por sua vez, não gostava muito dessa versão e negava que isso pudesse ter acontecido, embora eu não duvide que tenha comentado algo com a família sobre essa possibilidade eram práticas comuns na época.
Minha mãe, Maria de Fátima Marques Rolo, tinha apenas 15 anos quando se casou com meu pai. Entre os sete irmãos, foi a única que teve o privilégio de estudar em um colégio privado de freiras, ainda existente em Famalicão, cidade de Anadia.
Ela nasceu na localidade de Travassô, município de Águeda, distrito de Aveiro, mas desde pequena passou a viver em Espairo, pois meu avô Joaquim trabalhava no Grande Hotel da Curia.
Na fotografia, minha mãe aparece à esquerda, ao lado de uma amiga do colégio.
Na outra imagem, meu avô está sentado em frente ao Grande Hotel da Curia, local onde trabalhava.
Era filha de Maria José Marques Maia Rolo que também era natural de Travassô onde viviam e ainda vivem grande parte das suas raízes de apelido Maias e Marques e de Joaquim Ferreira Rôlo, quem era natural do mesmo Município de Anadia onde nasci, trabalhava no Grande Hotel da Curia que ficava a dois quilômetros de distância da nossa casa em Espairo. A mãe do meu avô que ainda cheguei a conhecer, vivia em São Lourenço do Bairro e era das famílias de apelido Malicia de essa localidade.
Os meus avós maternos: Maria José e Joaquim Rôlo.
O meu pai, Germano Lopes Carloto, conheceu a minha mãe durante o casamento dos meus tios e padrinhos em Anadia, já que ele vivia em Lisboa. Pediu em casamento aos meus avós e se casaram pouco tempo depois.
Era natural de Almada, mas passou a maior parte da sua juventude em Lisboa onde conheceu uns italianos que o ensinaram a profissão de vendedor de cortes de fazenda para fazer fatos e vestidos, assim como
outros artigos; relógios, etc. Era vendedor ambulante e viajava pelo território nacional na sua atividade, onde chegou a fazer sociedade com o seu irmão António, meu tio e padrinho, que numa das viagens conheceu a minha tia e madrinha Micas quem era viúva; se enamoraram e casaram.
Nesta fotografia tirada no ano de 1949 aparecem os meus pais onde a minha mãe Fátima já estava gravida da sua primeira filha, a minha irmã Célia, quem nasceu no dia 22 de janeiro de 1950.
Recordo ainda quando tinha mais ou menos 2 anos de idade os meus pais foram viver para a Cova da Piedade por poucos anos, onde conheci ali o meu avô paterno Joaquim Carloto. Já a minha avó Maria Joaquina tinha falecido antes de eu nascer. A minha irmã Célia ainda a chegou a conhecer. Também nesta cidade nasceram todos os irmãos do meu pai onde viveram durante muitos anos.
Aqui nesta fotografia tirada na Cova da Piedade; o meu pai Germano, a minha mãe Fátima, eu com2 anos de idade, a minha irmã Célia com 4 anos e a minha prima Rosa.
Foram sempre para mim os melhores tios do Mundo aos que recordarei com nostalgia até ao final dos meus dias. Hoje ainda ficam algumas dessas lembranças nas minhas relações com meus primos, filhos de alguns de estes que temos ainda o privilégio de por aqui andar e poder compartilhar com eles de vez em quando um encontro de primos que esporadicamente temos feito .
Quando voltamos de novo para a minha terra natal por motivos de que os meus avós maternos tinham muitas saudades nossas e insistiam em querer viver juntos perto uns dos outros, porque Lisboa ficava a uma
grande distância que naqueles tempos onde não existiam os meios de transporte que existem hoje era difícil poder ver-nos com alguma frequência.
Ainda lá está a minha escola exatamente como era antes.
Nesta fotografia tirada no ano de 1949 aparecem os meus pais onde a minha mãe Fátima já estava gravida da sua primeira filha, a minha irmã Célia, quem nasceu no dia 22 de janeiro de 1950.
Recordo ainda quando tinha mais ou menos 2 anos de idade os meus pais foram viver para a Cova da Piedade por poucos anos, onde conheci ali o meu avô paterno Joaquim Carloto. Já a minha avó Maria Joaquina tinha falecido antes de eu nascer. A minha irmã Célia ainda a chegou a conhecer. Também nesta cidade nasceram todos os irmãos do meu pai onde viveram durante muitos anos.
Fotografias da minha querida família, aos que sempre estarei agradecido por Deus ter me brindado a oportunidade de disfrutar do seu grande amor, da sua companhia e de tudo o que eles me brindaram e ensinaram enquanto puderam.
Passei toda a minha adolescência na minha terra no lugar de Espairo e nas termas da Curia aos fins de semana onde trabalhava o meu avô.
Estudei secundaria na Cidade de Aveiro.
Nesta fotografia aproximadamente ano 1960 estou com os meus pais, a minha irmã e a minha tia Adelaide, irmã da minha mãe que vivia numa casa ao lado da nossa casa em Espairo.
Desde criança sempre fui inquieto e criativo, inventando meus próprios brinquedos, pois naquela época era difícil conseguir esses objetos — privilégio apenas de famílias com mais recursos.
Nunca nos faltou nada em casa, mas também nada sobrava. Eu fabricava carrinhos para brincar na areia, guitarras,
baterias, até construí um coreto onde, junto com amigos, brincava de ser músico. Fiz também uma casinha de ferramentas para desmontar e montar rádios e relógios trazidos por meu pai, vendedor ambulante desses artigos; quando não serviam, ele recebia como parte do pagamento dos novos e me trazia para brincar. Às vezes, conseguia até arrumá-los. Gostava de fazer
instalações elétricas, campainhas — de vez em quando os fusíveis da casa iam pelos ares! Cheguei a levar alguns choques, claro.
São tantas histórias e anedotas vividas na minha aldeia durante a infância que encheriam centenas de páginas; tentarei mencionar apenas algumas que marcam minha memória.
Todos os habitantes se conheciam e ajudavam uns aos outros em qualquer necessidade ou imprevisto.
Às tardes jogávamos bola no largo da capela, como em muitas aldeias portuguesas: éramos praticamente uma só família.
Era ali, no largo da capela, que se realizavam festas, apresentações de comediantes, jogos de malha aos fins de semana, e toda a vida social acontecia naquele espaço.
No centro também ficava a loja da senhora Teresa Leitão e do Zé Coelho, onde se vendiam produtos de mercearia, anexada a uma taberna que logo de manhã recebia os trabalhadores do campo para “matar o bicho”. Esses comerciantes eram figuras queridas e populares, e os filhos deles eram meus contemporâneos.
Muitas tradições se mantinham: as meninas jogavam à macaca, os rapazes ao pião, armávamos costelos para pegar pardais, nadávamos de cuecas — ou nus — no rio Cértima, roubávamos fruta ou espigas para assar, e até havia um mapa das árvores frutíferas mais cobiçadas pelos mais travessos.
Recordo-me de uma vez quando, por solidariedade com outros rapazes, fui pegar romãs atrás da casa do senhor Albano, o alfaiate da terra. Enquanto eles subiam na árvore, fomos surpreendidos por disparos de perdigões — com milho! — para nos assustar.
No dia seguinte, ao passar em frente à loja do alfaiate, ele me chamou e, surpreendendo-me, pediu que eu pegasse quantas romãs quisesse, pois sabia pela vizinhança que eu não costumava roubar suas frutas.
Foi um momento de reflexão para mim — percebi o valor da honestidade, algo que minha avó sempre me ensinou com rigor e carinho.
Minha mãe me batia algumas vezes por eu querer andar com os outros rapazes, que eram mais livres; lá em casa, funcionava diferente. A colher de pau era aliada dela na hora do castigo, mas com o tempo, o gesto virou motivo de riso e cumplicidade entre nós.
Quando fugia, escondia-me debaixo das saias da minha avó, que me protegia e acalmava a situação.
Na aldeia só havia um telefone na taberna do senhor Armando sapateiro e da senhora Adelaide. Quando alguém recebia chamada, era motivo de emoção: a notícia corria pela aldeia e íamos correndo atender.
Comprávamos na loja do Zé Coelho o que não produzíamos em casa. Não havia supermercados. Em casa criávamos galinhas e coelhos, um porco que era abatido no inverno e conservado em salgadeiras, chouriço no fumeiro da chaminé, legumes e batatas cultivados, oliveiras e vinhas para azeite e vinho.
O pão ou a broa era feito em forno próprio; poucas vezes se comprava pão, mas na minha casa todos os dias a padeira nos deixava os paes que se encomendavam num saco de pano pendurado na porta da casa.
Vendedores ambulantes passavam pela aldeia; televisão só havia uma, em preto e branco, na loja do Zé Coelho, onde nos reuníamos para assistir à RTP aos fins de semana. Mais tarde, meu pai também comprou uma e os vizinhos vinham à nossa casa assistir aos programas e filmes que na época transmitiam nesse canal do Estado que era também e único que naquela época existia. Cabe destacar que nesse tempo quem governava Portugal era o primeiro ministro, António de Oliveira Salazar, entre os anos de 1932 e 1970.
Na minha terra naquela época só duas famílias tinham carro: um médico e o meu pai. As pessoas circulavam de bicicleta ou motorizada.
O Zé Coelho tinha carroça com um burro para buscar as mercadorias que se vendiam na loja em Mogofores, a um quilômetro de distancia.
Assim era a vida na nossa aldeia: simples, de gente humilde, trabalhadora. Alguns tinham grandes propriedades, herança dos antepassados, e trabalhavam incansavelmente para conservar essas terras.
São memórias vivas, de comunidade e solidariedade, que moldaram minha infância.
Entrei para a Escola Industrial e Comercial de Aveiro (EICA) em 1963 onde já a minha irmã Célia andava a estudar. Todos os dias, viajávamos 32 km de comboio da estação de Mogofores para Aveiro e de volta, pois não havia outra escola secundária mais próxima naquele tempo.
Na década de 60, enquanto estudante, fui membro da Mocidade Portuguesa “graduado” no quartel de Infantaria 5 de Aveiro uma organização juvenil criada pelo Estado Novo para promover valores do regime e formar os jovens segundo essa ideologia. Era obrigatória para crianças de 7 a 20 anos, divididos em diferentes escalões e com o objetivo de incutir disciplina, patriotismo e prepará-los para a vida militar.
Pelo meu bom comportamento escolar, fui selecionado na disciplina de Religião e Moral da EICA para um estágio no colégio da Mealhada, onde participei num curso de Cultura e Formação Juvenil, com alunos selecionados de vários colégios dos distritos de Aveiro e Coimbra.
Esta fotografia tirada com os meus pais no Teatro de Aveiro onde a minha irmã fez uma excelente atuaçao como protagonista de uma obra teatral pouco tempo antes da nossa saida de Portugal.
Ao fazer 17 anos, em 1968, já não queria continuar os estudos e fui voluntário para a inspeção de ingresso na Força Aérea Portuguesa. No entanto, o daltonismo detectado impediu-me de ser admitido.
Então, decidi emigrar em busca de independência e melhores oportunidades.
Continuamos a viver na casa dos meus avós, com meus pais, até dezembro de 1969 data em que minha irmã e eu partimos para o Brasil. Minha avó Maria José já havia falecido, e meu avô Joaquim ainda estava vivo.
Quase a completar 18 anos, surgiu a oportunidade de emigrar ao Brasil, em 3 de janeiro de 1970, acompanhando a minha irmã, pois tinha-se casado por procuração com um luso-brasileiro residente em São Paulo.
Vivi um ano naquela grande metrópole, dando os primeiros passos como corretor imobiliário. Como meu sonho de criança era emigrar para a Venezuela onde morava grande parte da minha família, meus pais, que foram de Portugal ao Brasil para passar o Natal de 1970, decidiram viajar comigo para o país onde resido desde 6 de janeiro de 1971.
Nos primeiros anos em Caracas, permaneci indocumentado, pois era muito difícil conseguir legalização. Trabalhei e aprendi a arte de
técnico relojoeiro na ourivesaria e relojoaria La Carlota, que era de um primo meu.
Conheci muitos jovens da minha idade e famílias portuguesas que me acolheram com amor, aos quais sou eternamente grato.
Mesmo sem documentos, frequentava o Club Desportivo Português, recém adquirido pela comunidade e depois chamado Asociación Deportiva Luso Venezolana de Turumo, onde organizei e dirigi o primeiro grupo de teatro da associação, escrevendo inclusive uma comédia que ali foi encenada.
Fiz amizade com empresários portugueses como José Marques Moreira. Durante uma campanha dele à presidência do clube, expliquei minha situação de indocumentado já com documentos há mais de dois anos e meio em espera. No dia seguinte, graças à sua influência, consegui enfim a residência de forma inesperada e emocionante, após uma longa espera. A partir daí, começou uma nova vida para mim.
Legalizado, comprei meu primeiro carro, um Ford Cortina, com dinheiro que meu pai mandou de Portugal. Até então, trabalhava para sustentar-me, e logo me tornei vendedor independente de joias, adquirindo rapidamente clientes, principalmente na comunidade portuguesa.
No entanto, um roubo que me tirou o carro e todas as joias obrigou-me a mudar de rumo. Por sugestão de amigos, fundei minha primeira empresa imobiliária, ramo que sigo até hoje.
Minha primeira empresa imobiliária na Venezuela, a Construtora e Imobiliária Cascais, situava se em Boleita, uma urbanização no leste de Caracas, cheia de influência estrangeira, italianos, espanhóis e inúmeras famílias portuguesas.
Ali havia duas ourivesarias dos meus tios, padarias, agência de viagens, restaurante típico português, lojas de eletrodomésticos, supermercados, ferragens, carpintarias, e inclusive era lá que chegavam jornais e revistas vindos de Portugal.
O ambiente era muito familiar e sempre me senti em casa. Os venezuelanos acolhiam bem os imigrantes europeus e nutriam especial respeito e admiração pelos portugueses, conhecidos pela honestidade e dedicação.
Naquele tempo, nunca se ouviu falar de portugueses envolvidos em problemas ou desordens.
Minha trajetória empresarial começou ali; em cerca de um ano, consegui juntar dinheiro para comprar o meu primeiro apartamento, pois naquela época namorava uma jovem filha de pais portugueses e pensávamos em casar.
Além disso, meus pais queriam mudar-se de Portugal para a Venezuela para estarmos juntos, e minha irmã, depois de regressar do Brasil para Portugal com o cunhado e filhos, também decidiu migrar. Assim, logo estávamos todos vivendo juntos no novo apartamento, numa urbanização chamada El Marqués, relativamente próxima do meu escritório.